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Entrevista: A poda das videiras

 

 

 

 
 
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António Martins

 

Colaborador Habitual do Ruralidades

 

 

Lombardo – Boa tarde, Sr. Martins… Sim, porque já passa do meio dia. Estava aqui à sua espera para o ver podar as videiras. O Manuel da loja avisou-me que vinha hoje até à vinha, mas não estava à espera de o encontrar tão tarde.

 

 

 

António Martins – Boa tarde, Sr. Lombardo. Ora, não fique a pensar que não sou madrugador. Este ano está bastante frio, muito vento e é preferível trabalhar debaixo deste sol, porque com o vento as varas das videiras partem-se muito. Não é hoje que as vamos atar aos andares, mas temos de as vergar para tirar medidas. Para isso é preciso haver sol e pouco vento. E então se houver geada, nem pensar em fazer este trabalho! Arrisco-me a partir as varas.

 

 

 

Lombardo – Que poda tão complicada…

 

 

 

António Martins – Nada disso. A poda serve apenas para cortar as varas, umas estão a mais, outras estão muito compridas, outras estão fracas e por isso devem ser cortadas na altura certa para que possam rebentar. É depois do corte que vão nascer outras varas e o fruto, as uvas, está a perceber?

 

 

 

Lombardo – Como vai fazer a poda?

António Martins – Ora, vou fazer uma poda de cornecho. Vou cortar as varas que já não estão em condições, ou seja, vou desbastar e, aquelas que ficam na videira vão ficar com uma altura em que seja possível ficarem com três olhos. Corto para que restem apenas três ou quatro varas em cada videira, e cada uma das varas deve ficar com três olhos. As varas que também crescem na parte mais baixa do tronco, por baixo do andar, também devem ser cortadas – inutilizamo-las. Limpa-se a videira que é para não rebentar nada abaixo dos andares e para não tirar a força à videira por aí.

 

 

 

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Lombardo – Há outro tipo de poda?

António Martins – Sim, há a chamada poda de vara, que consiste em deixar várias varas na videira, todas compridas e apenas levam um corte menos acentuado. O objectivo é ficarem bastante compridas. Posteriormente são também atadas ao engado.

Lombardo – O que é o engado?

 

 

 

António Martins – É a estrutura da vinha – estes postes de madeira com os quatro arames que sustentam a planta. Isto é o engado. A videira é atada com um fio sintético com alguma elasticidade para que não tombe ou parta com o vento ou com o peso das uvas. Antigamente usava-se a rafia mas esta fere a videira por não ter elasticidade.

 

 

 

 

 

Lombardo – Qual a vantagem da poda do cornecho?

 

 

 

António Martins – Para mim é a melhor. Além disso as uvas ficam de melhor qualidade. As videiras produzem menos, porque ficaram com menos varas, mas as uvas são melhores. Na poda de vara a videira dá muitas uvas, mas são garantidamente de pior qualidade.

 

 

 

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Lombardo – Então a única vantagem está relacionada com a qualidade do fruto?

 

 

 

António Martins – Sim, embora a poda de cornecho seja a mais difícil, mais trabalhosa.

 

 

 

Lombardo – Há pouco ouviu-o falar em um andar, dois andares… o que é isso?

António Martins – Bem, já terá reparado que nós aqui na vinha temos uma estrutura com quatro arames. É o chamado engado, certo?

 

 

 

António Martins – Não é por acaso. Estes arames marcam os andares. Depois da poda, as varas que se mantêm compridas vão ser moldadas e atadas aos andares. Endireitamos as varas e conduzimo-las para que fiquem em condições de fazerem os andares.

 

 

 

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António Martins – Mas também estas levam um corte, atenção. Mas enquanto umas são cortadas pela base, há sempre três sou quatro que ficam mais compridas.

 

 

 

António Martins – E têm de ficar, porque sem olhos não há fruto. Ora, as videiras devem ficar, no máximo, com a altura de dois andares, ou seja, três arames e meio. No primeiro arame por norma nunca se põe nada, não conta. Portanto se a videira estiver no terceiro arame diz-se que está no segundo andar.

 

 

 

António Martins – Enquanto são novas dão mais trabalho, porque temos de as orientar, mas depois acabam por fazer o andar sozinhas e já se tornam mais fáceis de podar. É só chegar ao andar e fazer a poda de cornecho. Já não vai ser necessário atar.

 

 

 

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Lombardo – Como é que sabe quais as varas certas a podar?

 

 

 

António Martins – Vai-se vendo… e limpando as varas que a gente vê que não dão fruto ou que estão fracas e finas.

 

 

 

António Martins – Está a ver esta videira? Já está toda limpa. Deixamos em cada talão três olhos que é para elas rebentarem, mas em cada uma das varas bastam três. É conforme a espessura da videira e conforme se ela estiver forte ou fraca.

 

 

 

Lombardo – O que é um talão?

António Martins – É a mesma coisa que vara.

 

 

 

Lombardo – Como é que sabe se ela está forte ou fraca?

António Martins – É pela força do tronco e a grossura das varas. Se as varas forem delgadinhas, é sinal que a videira está fraca.

Lombardo – E têm de ser três olhos porquê?

 

 

 

António Martins – Não há nada que diga que são três, nós normalmente é que os deixamos ficar que é para a videira poder rebentar por aí. Fica só um bocadinho de tronco e ela deve rebentar pelo último olho, mas por vezes com a geada pode secar e então vai rebentar no olho a seguir, ou ainda no outro. Depende.

 

 

 

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Lombardo – E se ficassem cinco olhos?

António Martins – Nesse caso a vara ficava muito comprida, não há necessidade disso.

 

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Lombardo – Estou a ver por aqui algumas videiras que terminaram a sua produção com varas muito longas…

 

 

 

António Martins – Isso geralmente acontece quando as videiras são mais fortes, ou porque levaram mais água ou é da própria terra que naquele local levou mais adubo. Mas isso não significa que essas uvas sejam melhores – às vezes vai a força toda para a vara e depois acaba até por não dar uvas, mas como aqui geralmente são todas ainda espontadas em verde… o espontar das varas serve precisamente para que elas engrossem para que depois na altura da poda possamos escolher as varas que vingam.

 

 

 

Lombardo – Porque se faz a poda nesta altura, em meados de Fevereiro?

 

 

 

António Martins – Em outros anos até já a devia ter feito, mas como este ano é um ano de muito frio, muito gelo… aguardámos por meados de Fevereiro para começar as podas, é a altura em que já não há tanto gelo e evita-se que fique queimada a zona do corte.

 

 

 

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António Martins – Mas não basta ter em atenção as condições climatéricas. A posição da lua também é importante. Neste momento estamos no minguante e é precisamente nesta fase da lua que as videiras ou qualquer outra árvore de fruto devem ser podadas para que possam produzir bem e rebentar melhor. As fases da lua têm muita importância nas podas, embora às vezes não possamos estar à espera da lua e até se costuma dizer que “as videiras são podadas quando a tesoura lhes chega ao pé.”

 

 

 

Lombardo – Isto é que é um olho?

 

 

 

António Martins – Sim, é o que deixamos na vara. Quando está muito gelo, o último olho acaba por se queimar com o frio e a planta já não rebenta por aí. Vai rebentar pelo olho mais abaixo, imediatamente mais abaixo. Por isso é que estamos a fazer a poda mais tarde este ano, até para ver se as videiras rebentam pelo último olho.

 

Lombardo – Agora quando é que começa a rebentar novamente?

 

 

 

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António Martins – Bem, isso agora… antes disso ainda leva uma adubação, logo nas primeiras águas. Quando agora começar a chover dou-lhe adubo, vou-lhe por o 7-14-14 com boro, que é a adubação de Inverno, mas como este ano a chuva ainda não chegou, ainda não podemos fazer esta adubação. É um adubo granulado, é posto na terra, junto do pé. Mas esta vinha já levou uma cura de calda bordalesa, que é um produto utilizado para desinfectar as cepas e até para proteger contra o gelo. É sulfatada.

 

 

 

Lombardo – E se a chuva não vier?

António Martins – Bem, em princípio terei de adubar e a seguir regar. É gastar água.

 

 

 

Lombardo – Se não podar o que acontece?

António Martins – As videiras ficavam bravas, davam muito fruto, mas sem qualquer valor, não tinha força nenhuma o vinho depois.

 

 

 

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Lombardo – Então todos os anos há poda?

 

 

 

António Martins – Sim, todos os anos. Se não a fizer um ano, o trabalho no ano seguinte duplica. E não é só isso. Fica logo videira brava. Ganhava varas enormes que começam a rebentar por todos os lados, por toda a vara e até na ponta da vara. Depois fica um vinho sem graduação nenhuma.

 

 

 

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Lombardo – Quanto tempo demora a limpar cada videira?

 

 

 

António Martins – É conforme o seu tamanho. Em média, quatro minutos, ou talvez um pouco menos.

 

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António Martins – Ora, aqui está uma videira nova que ainda não foi podada. Vai ter de ser moldada para que possa fazer andar.

 

 

 

 

 

Lombardo – Que cuidados tem de ter com a videira nova?

 

 

 

António Martins – Temos de a orientar para que ela vá para os arames. É aí que ela vai terminar que é para fazer andar. Uma videira nova tem sempre de ser orientada primeiro. E às vezes precisam do suporte de uma empa.

Lombardo – E já vai dar boas uvas?

António Martins – Por norma, uma videira nova não produz no primeiro, nem no segundo ano. Às vezes temos aqui algumas que ao terceiro ano já dão fruto. São de boa qualidade, se a vinha também o for, mas dão menos fruto. Ora aqui está uma – vamos lá ver se conseguimos com esta fazer já aqui andar. Vamos esticar, dobrar… sim, já dá.

 

 

 

Lombardo – O que é uma empa?

António Martins – Quando as videiras ou qualquer árvore ainda são pequenas ou têm muito peso nós colocamos-lhe um suporte de lado para que ela fique segura e amarrada. A isso chama-se uma empa, um suporte para que o vento não derrube ou parta a planta.

 

 

 

 

 

Lombardo – O que é que faz às varas que cortou?

António Martins – São transportadas para a terra e queimadas. A cinza é boa para a terra e como devem ter ácaros, o melhor é queimá-las todas.

 

 

 

Lombardo – Há quem as use para grelhados…. Ajudam a fazer o lume e dão um aroma peculiar à comida…

António Martins – Sr. Lombardo…. e a comida que não fosse para aqui chamada. Sempre a pensar no mesmo.

 

 

 

Lombardo – Olhe, e por falar nisso, já passa em muito da minha hora de almoço. Vemo-nos por aí. Até logo e obrigada pelos seus ensinamentos.

António Martins – Até logo.

 

 

 

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