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As enxertias no pomar 
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 António Martins - Colaborador habitual do Ruralidades

 

 

Ruralidades – Bom dia, Senhor António Martins. Vejo que tem aqui um pomar com cerejeiras, pereiras, macieiras…. Umas das tarefas mais engraçadas que se podem fazer com as fruteiras são as enxertias. Posso pedir-lhe que enxerte uma cerejeira?

António Martins – Sim, claro. Já aqui tenho um cavalo preparado.

Ruralidades – O que é o cavalo?

António Martins– É a planta onde vamos fazer o enxerto, ou seja, é a planta mãe. Depois há o garfo que é a parte que vamos buscar a outra árvore para procedermos ao enxerto.

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Numa enxertia, o que se pretende é retirar um ou mais garfos de uma cerejeira ou outra fruteira de boa qualidade, conhecida por dar bons frutos e enxertá-los por exemplo, numa cerejeira brava, ou seja, numa árvore que nasce espontaneamente e que, por essa razão, não dá fruto ou o que dá é pequeno e de duvidosa qualidade. Se eu quiser uma cerejeira a produzir convenientemente tenho que nela enxertar garfos de outras cerejeiras de reconhecida qualidade.

Ruralidades – Ora bem, temos então aqui uma pequena cerejeira brava, desconhecemos a sua qualidade, um cavalo, como lhe chamou e é precisamente aqui que vai enxertar um garfo, é isso?

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António Martins– Sim, vou buscar o garfo, ou seja, uma ponta boa de uma cerejeira que esteja em condições de enxertar no cavalo. O garfo deve ser da mesma espessura do cavalo para que os dois lados da pele coincidam.

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Para que a enxertia resulte, pelo menos um dos lados da pele do garfo tem que ficar ligado com a pele do cavalo. E é o que vamos fazer, começando a preparar o garfo com o canivete, ou seja vamos transformar a sua extremidade em forma de lança, como se tratasse de um dente de um garfo, para o poder inserir no cavalo.

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No cavalo faz-se um corte longitudinal do tamanho do garfo que se pretende inserir. A enxertia deve ser feita na parte mais baixa do cavalo.

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Ruralidades – Porquê?

António Martins – Para que a parte de baixo não continue brava – se houver rebentos na parte que não apanhou a enxertia, os frutos podem não ser bons.

Ruralidades – Mas este cavalo é apenas um pequeno tronco ou haste. E se fosse uma árvore maior? Como fazia?

António Martins– Se for maior também podemos enxertar. Tenho aqui uma que o gelo queimou, mas na qual consegui fazer dois garfos. Vê-se aqui a ráfia que a apertou e a massa que tapou todo o corte do cavalo. Mas está morta.

 

 

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É possível enxertar com espessuras maiores e colocar dois, três, quatro garfos. Os que quiser. Depois de rebentarem, escolhemos o melhor e retiramos os outros para que a árvore fique direita. Não fique bifurcada. Agora vamos fazer a cunha, ou seja, inserir o garfo no cavalo.

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Atenção que os instrumentos da enxertia, nomeadamente o canivete, devem estar muito bem afiados e nas melhores condições para permitirem a realização de um bom trabalho.

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A pele do garfo tem sempre que coincidir com a pele do cavalo. De seguida vou apertar a enxertia com um pouco de ráfia.

 
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Depois de bem atado, cortamos a ráfia em excesso e de seguida, em vez de fita isolante, que é mais barata, vou por massa isolante com uma espátula. Tenho que tapar toda a parte do corte com a massa para que nenhum ar ou humidade possa entrar. Caso contrário, o enxerto seca. Eu gosto mais da massa isolante, embora seja mais cara. Contudo, a fita para além de mais barata, é mais fácil de utilizar. Se quisermos enxertar 400 árvores, vale mais a pena usar a fita.

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Ruralidades – Quanto tempo demora a massa a secar?

António Martins – Dois dias, no máximo.

Ruralidades– Então em tempo de chuva não se fazem enxertias, é isso? 

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António Martins– Não convém. Se quiser ver, tenho aqui uma cerejeira enxertada, o garfo era da espessura do cavalo e ela ai está, foi por ai acima. Pegou muito bem.

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Ruralidades – Se puser no mesmo cavalo um garfo de uma cerejeira que dá cereja vermelha e outro de uma cerejeira que produza cereja branca, a cerejeira enxertada vai produzir frutos das duas qualidades?

António Martins – Exactamente. Por exemplo há dois anos fiz quatro enxertias numa pereira – tenho quatro qualidades de peras na mesma pereira! E numa macieira fiz três enxertias.

Ruralidades – E nas videiras – também faz enxertias?

António Martins – Antigamente fazia muitas e até é mais fácil de as fazer do que nas fruteiras. Mas deixei-me disso. Já compro as videiras enxertadas com a qualidade que quero. Às vezes enganam-me (risos), mas de uma maneira geral é muito mais fácil comprar já enxertadas porque adianta muito o trabalho e poupa-se muito tempo. Repare, se comprar uma videira brava tenho que a colocar na terra e esperar um ano para que pegue e só depois a posso enxertar. Assim, pelo menos um ano já consigo adiantar. No ano a seguir já estão a produzir.

Ruralidades – Quer mostrar-me a macieira que tem três qualidades de maça?

António Martins– É esta. Pode verificar que há três tipos de folha completamente diferentes, bem como três troncos diferentes da macieira mãe. Foi uma enxertia feita com fita isolante, que tem a propriedade de ser elástica – há medida que o diâmetro do tronco engrossa, a fita acompanha. Mas há uma altura em que já de nada serve. Pode ser arrancada.

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Esta macieira tem maças starking, golden e reineta. Pus aqui três variedades, mas há algumas árvores de fruto que não aceitam as enxertias ou mais do que uma enxertia. Enxertei uma ameixoeira com 3 garfos e secaram os três, está a ver? Não aceitou a diversidade. 

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Ruralidades – Obrigada pelo seu tempo, Sr. António Martins

 

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