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Entrevista: Amoras Silvestres

 

 

 

 
 
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Maria Emília Monteiro

 

Colaboradora Habitual do Ruralidades

 

 

Maria Emília – Bom dia, Sr. Lombardo. Mais um ano que passou depressa. Estamos novamente às portas do São Martinho.

Lombardo – Bom dia. Estou cá com uma preguiça!

Maria Emília – Pois, mas eu tenho de ir apanhar umas castanhas para o magusto. Quer fazer-me companhia?

Lombardo – Vou consigo. Tenho ouvido falar em magusto, magusto… mas afinal o que é o magusto?

Maria Emília – PEntão não sabe? É uma festa do povo. A família e os amigos sentam-se à volta do lume e assam castanhas. Também há quem asse bolotas. Comem as castanhas e bebem a jeropiga. Também se pode beber vinho novo ou água-pé. Conversa-se, canta-se e os mais festivos enfarruscam-se com as cinzas do lume. É uma festa, sabe?

 

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Lombardo – São Martinho é o dia do magusto?

Maria Emília – Sim. Mas também há quem o faça no primeiro de Novembro e no dia de S. Simão. E eis a Lameirinha. Já chegámos. Deixe lá ver como andam as castanhas por aqui.

Lombardo – Tantos ouriços…

 

 

 

Maria Emília – São muitos, mas as castanhas estão secas e pequenas. Este ano de 2011 foi uma miséria!

 

 

 

Lombardo – Porquê?

Maria Emília – Foi um ano muito seco no verão. E as castanhas ficaram miuditas.

 

 

 

Lombardo – É por isso que elas estão todas caídas no chão?

 

 

 

Maria Emília – Não, elas vão caindo, mas há quem lhes bata com uma vara para as atirar para o chão.

 

 

 

Lombardo – Então significa que as que estão no chão são boas para comer?

 

 

 

Maria Emília – Pois, já estão na altura. Quando o ouriço fica castanho… e depois as que caem e não abrem temos de ir com um pau ou com os pés abrir os ouriços e tirar as castanhas. Olhe, quer ver?

 

 

 

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Lombardo – Mas há umas que já estão fora dos ouriços.

 

 

 

Maria Emília – Pois, isso depende. Há umas que quando caem saltam logo dos ouriços e há outras que é preciso tirá-las lá de dentro.

 

 

 

Lombardo – Algumas são difíceis… é por não estarem bem secas?

Maria Emília – Então, secas estão elas. Estão demasiado secas do calor. Estão ressequidas. Estão custosas de sair.

 

 

 

Lombardo – Cada ouriço tem duas e três castanhas…

 

 

 

Maria Emília – Pois é, daqui saíram três, mas está tudo muito seco. Talvez os outros castanheiros estejam melhor.

 

 

 

Lombardo – Quer lá ir?

Maria Emília – á vamos, pois. Por aqui ficou tudo aleijado. Não choveu…

Lombardo – Parecem comidas por dentro…

 

 

 

Maria Emília – Pois, não se criaram, mas ainda há por ai umas grossitas... No mesmo ouriço podemos encontrar duas castanhas más e uma boa. Quase não vale a pena…

 

 

 

Lombardo – Esse ouriço é grande!

 

 

 

Maria Emília – Vamos lá ver se saem todas boas. Ora, com bicho, é bichoca!

 

 

Maria Emília – Está a ver a minhoca?

 

 

 

Lombardo – Homessa! Minhoca? Não sabia que também havia minhocas nos ouriços?

Maria Emília – Então, é como a fruta toda. Tudo ganha bicho.

 

 

 

Lombardo – Mas é normal acontecer? Minhocas a furarem ouriços e a casca da castanha?

 

 

 

Maria Emília – Sim, sempre aparecem algumas com bicho. Está a ver, aqui estão três castanheiros e pouco ou nada se aproveita. O ano passado andei aqui com a Quita das Courelas e as castanhas ainda eram grossas, mas este ano… é pouca sorte.

 

 

 

Maria Emília – Vamos mas é até Gaióis. Pode ser que o castanheiro que lá está tenha tido mais sorte.

Lombardo – Cá estamos. Que grande castanheiro. É mais frondoso que os outros três!

 

 

 

 

 

Maria Emília – Este é muito grande. Já tem muitos anos. Cada castanheiro pode viver até mil anos, sabia? E aqui há muitos. Reparou na estrada cheia de ouriços?

Lombardo – Sim, estava tudo no chão.

 

 

 

Maria Emília – Ora deixe cá ver… Ah, sim, aqui as castanhas são melhores. Já são mais grossas e estão mais fora dos ouriços. Aqui já vou conseguir apanhar algumas.

 

 

 

 

 

Lombardo – E estas castanhas tão fininhas? É só casca?

 

 

 

Maria Emília – Pois, essas não incharam, naturalmente não tiveram água, ficaram raquíticas.

Lombardo – Oh, Maria Emília, diga-me lá porque é que se comemora o São Martinho no dia 11 de Novembro?

 

 

 

Maria Emília – É a comemoração do ano da sua morte. Reza a lenda que Martinho de Tours era um soldado romano que ao passar a cavalo por um mendigo e ao vê-lo à chuva quase nu cortou com a espada parte da sua capa e ofereceu-a ao pobre. Logo de seguida aconteceu um milagre: parou de chover e o sol apareceu. É por isso que no dia de São Martinho nunca chove. Está sempre sol. Nunca ouviu dizer que “verão de São Martinho são 3 dias e mais um bocadinho”?

 

 

 

Lombardo – Sim, já tinha ouvido falar no verão de São Martinho….

 

 

 

Maria Emília – Agora vamos ali quase ao pé da porta do Firmino na Frazoeira. Lá as castanhas ainda devem estar um pouco atrasadas, mas o castanheiro está carregadinho. Os ouriços é que são muito miuditos. Mas esse é que é um verdadeiro castanheiro.

Lombardo – Porquê? Os outros que vimos não o são?

 

 

 

Maria Emília – Não, esses são de touça. São touceiros.

Lombardo – O que é isso?

Maria Emília – Dão castanhas, mas não são verdadeiros. Os verdadeiros deitam castanhas grandes que são uma lindeza.

Lombardo – Então e porque é que este verdadeiro castanheiro está mais atrasado?

Maria Emília – Porque uns são mais serôdios e outros mais temporãos, isto é, vêm mais cedo. Ora aqui está. Está a ver tantos, mas tão miudinhos? Ainda estão verdes. Só depois de amadurecerem e que ficam castanhos.

 

 

 

 

 

Lombardo – Sim, e quase não caiu nenhum ouriço para o chão.

 

 

 

Maria Emília – Pois, foi o que lhe disse. Está mais atrasado. Está agora a começar. Há alturas em que fica abafado pelos eucaliptos. Mas deu tantos…. Olhe lá para cima! Sabe, estas castanhas costumam ser mais pelos santos.

 

 

 

 

 

Lombardo – Que santos?

Maria Emília – O dia de todos os santos, 1 de Novembro. É próximo aos santos que começa a deitá-las.

Lombardo – E são mais miuditos porquê?

 

 

 

Maria Emília – Porque são muitos. Se fossem menos ouriços, o fruto crescia mais. Sabe que na verdade o fruto do castanheiro é o ouriço, não é a castanha. A castanha é apenas a semente.

Lombardo – Se puser uma castanha na terra nasce um castanheiro?

Maria Emília – Sim, mas demora muito tempo a crescer e a dar fruto. Até se costuma dizer que um castanheiro demora 300 anos a crescer, 300 a viver e 300 a morrer. Mas olhe, se o fizer semeie a castanha do meio, percebe – num ouriço com três castanhas semeie sempre a que está no meio. Diz o povo que é a melhor.

Lombardo – Não sabia. E flor? Nunca vi.

Maria Emília – A flor é comprida e amarelada e depois acaba por ficar em tons de vermelho. Chama-se amentilho mas é mais conhecida por candeia porque parece iluminar toda a árvore. É bonita. Mesmo já depois de seca.

 

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Maria Emília – Vou levar uma maçaroca. Quer uma?

 

 

 

Lombardo – O que é uma maçaroca?

Maria Emília – É isto. É um ramo bonito para levar para casa.

 

 

 

Lombardo – A madeira do castanheiro também é de grande qualidade.

 

 

 

Maria Emília – Sim, é o castanho. Há castanheiros que são plantados só por causa da sua madeira. Há-os na castiça.

 

 

 

Lombardo – Castiça?

Maria Emília – É um povoamento de castanheiros para produção de madeira. Se for um povoamento para produção da castanha chama-se souto.

Lombardo – E a castanha é utilizada para muitos fins.

Maria Emília – Olhe, só na cozinha… já comeu broa de castanha?

 

 

 

Maria Emília – Sabe que no tempo dos reis na falta de pão comia-se castanha. Dantes comia-se mais cevada, centeio, trigo. Mas depois apareceu a batata e o milho e a castanha ficou mais esquecida.

Lombardo – Sei que também há quem faça puré e sopa de castanha. Sabe fazer?

Maria Emília – Sei, pois, é muito boa.

 

 

 

Lombardo – E por falar em sopa… está na hora da janta.

Maria Emília – Vá lá, vá lá. Eu ainda fico mais um pouco por aqui. E depois ainda vou ao Pau Mau. Também há lá um bom castanheiro.

 

 

 

Maria Emília – E não se esqueça, Sr. Lombardo: “No dia de São Martinho, lume, castanhas e vinho!”

 

 

 

 

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